FOTOEVASÃO

Este espaço será essencialmente dedicado aos participantes nas diversas actividades, sendo um local de divulgação dos trabalhos fotográficos, textos e outros testemunhos das vivências dos nossos clientes.

11 de fevereiro de 2010

"Água no Deserto" por Carlos Ribeiro

ENGENHARIA SECULAR BERBERE CONSTRÓI “LES KHETTARAS”

O deserto do nosso imaginário é quase sempre associado a um local longínquo, com imensas extensões de areia, temperaturas elevadas e ambiente hóstil à presença do homem, devido à falta de recursos nomeadamente a indispensável água. Esta imagem generalizada também nos acompanhou ao longo dos anos, até surgir a possibilidade de rumar a outras latitudes e viver em contacto com esta realidade. A experiência única da luta pela subsistência nos imensos espaços de areia.



Dromedários pastoreiam livremente na planície desértica

Inicialmente com amigos, motivados pelo desejo da aventura “exploradores dos tempos modernos”, para em resultado de uma escolha de vida passar a viajar habitualmente por estas paragens adquirindo aos poucos o á vontade de um profissional, percorrendo as pistas do Dakar e conduzindo expedições a locais fascinantes que habitam o nosso imaginário pela mão do cinema por locais desconhecidos, sem registos nos mapas, estradas, ou comunicações por telemóvel.

Se nas primeiras impressões o fascínio é de quem descobre um mundo novo, com uma vivência exigente e muito própria, que se vai adquirindo com o passar do tempo e o calcarrear das pistas, aos poucos concentramo-nos em detalhes e reflexões, na avidez de quem procura respostas tão simples como a fixação dos Berberes em oásis, sem que à vista existam quaisquer sinais da existência de água, nem tão pouco as românticas palmeiras, “clichés” associados aos pequenos pedaços de vegetação plantados no deserto permitindo a fixação das gentes que vivem, «sobrevivem», em bolsas de pequenas comunidades com algumas cabeças de gado e os parcos haveres de quem resiste numa luta sem igual contra a infertilidade do solo, as areias ciclicamente arrastadas pelo vento e as temperaturas escaldantes.



Jóias da ourivesaria berbere trabalhadas em prata

No grande Sul marroquino, nos cerca de 160km que medeiam Tinerhir de Erfoud é impossivel ignorar as centenas de montes de areia, alinhados de forma organizada e repetitiva que povoam os limitrofes dos oásis, inundando a superfície do deserto de uma forma simetrica, em contraste com as dunas que crescem e ganham forma ao sabor do critério dos ventos.

Empurrados pela curiosidade, mais forte que os nossos compromissos de agenda, controlados pelos ponteiros do relógio, mesmo no deserto, ignoramos as pistas e as coordenadas da navegação por satélite, para avançar rumo aos intrigantes montes que à distância, parecem construidos por laboriosas e gigantes formigas.

Se é verdade que a necessidade aguça o engenho, o facto é que ninguém espera em pleno Saara, encontrar uma obra de engeharia Berbere, resultado da imperiosa necessidade de obter água, sem dúvida fruto de estudo e conhecimentos antigo, para concretizar o arrojado projecto.

Pelo que conseguimos averiguar, no hospitaleiro mas nem sempre fácil diálogo com os orgulhosos homens das areias, a obra de engenharia data do século XII e foram necessárias dezenas de anos de trabalho árduo e comunitário para a sua concretização. A falta de documentação escrita, permite-nos investigar unicamente pelo conhecimento verbal, passado de pais para filhos, com as omissões e falta de rigor próprios do processo.

A informação da data é meramente especulativa. Por aqui diz-se de tudo para cativar a atenção e o interesse dos viajantes, criando mais oportunidades de negócio. Por certo é fácil depreender que o tamanho e solidez das terras removidas à volta dos poços são relativamente recentes, talvez devido à ciclica necessidade de manutenção, forçada pela acção do vento.

Não é fácil encontrar entre as dunas e ergues quem tenha os conhecimentos ou os meios para dominar o processo da escrita, apesar destas paragens serem um dos berços da mais importante forma de comunicar até hoje inventada. As nossas investigações levam-nos a concluir que gerações anteriores encontraram como solução para obter água em quantidade suficiente para as suas necessidades a construção de poços com 1.5m de diametro, escavados primáriamente na areia, atingindo o subsolo de cascalho, aos 20m de profundidade, interligando-os entre si por um estreito túnel com espaço suficiente para caber um homen (que procedeu à tarefa de abertura do buraco), com uma quota de inclinação a qual permite a deslocação da água em direção aos pequenos oásis. O conjunto de dezenas de poços ligados ao túnel, entre parca nascente e o destino final, vão recolhendo as magras gotas de água que lacrimejam a maiores profundidades, engrossando pacientemente o pequeno caudal até à sua chegada ao poço comunitário, tornando assim possível a sobrevivência em locais tão inóspitos.



A tenda nómada dos Guardiões de Memórias e Vendedores de Tesouros


TEMPO, CONHECIMENTO E PACIÊNCIA


Levando em consideração as toneladas de areia e cascalho removidos, assim como os rudimentares instrumentos de trabalho utilizados, é impossivel determinar qual a quantidade de tempo ou mão-de-obra para concluir tão faraónica empreitada. Conhecendo a filosofia de vida que pauta os homens do deserto e sabendo-se que no seu quotidiano a passagem das horas não é aferida pelos nossos padrões, para estes observadores das estrelas e das miragens, o passatempo preferido são as intermináveis conversas em grupo, regadas com escaldantes chicaras de chá de menta, respeitando uma hierarquia na qual o estatuto social é medido pela riqueza pessoal: entenda-se cabeças de gado e mulheres. Tempo e persistência foram decisivos para a conclusão da obra.

As grandes questões colocam-se no entanto em aspectos de ordem mais técnica: escavar em que locais?, a que profundidade?, com que inclinação e alinhamento?, quantos poços construir?, tudo isto sem dispor dos modernos meios tecnológicos de hoje. Por muito rudimentar, esta é uma forma de conhecimento antiga, mas eficaz que infelizmente não chegou até nós.

Se temos como certa a resolução da questão técnica, sem a qual não teria sido possível a fixação de pequenos grupos nas áridas areia, até aos dias de hoje, como á milénios, enfrentando a rigidez dos elementos e desafiando as leis da natureza, só um forte apego ao deserto (seu habitat natural) e uma vontade férrea de resistir explicam a motivação dos “homens azuis” face ao milagre do impossível.



Os múltiplos poços alinhados no deserto, comunicando entre si por túneis subterrâneos


GUARDIÕES DE MEMÓRIAS E VENDEDORES DE TESOUROS

Mohamed de 30 anos, Yousef de 29 e Ibrain de 28 são irmãos, solteiros, naturais dos planalto do Tafilalt situado nas margens do rio Ziz, considerado um dos maiores oásis do mundo com uma “floresta” de palmeiras a espraiarem-se ao longo de um dos maiores cursos de água da geografia marroquina. Vivem no deserto, numa tenda nomade, e quando possível vão ver a família que habita o oásis (cidade) de Erfoud, província de Er-Rachidia no Sul de Marrocos, situado nas desérticas planícies de areia que antecedem as montanhas do Atlas, antes de penetrarmos no coração no grande deserto do Saara.

A probabilidade de encontrar emprego é quase nula, a agricultura é de subsistência e a pastorícia reduz-se a uns magros rebanhos de cabras e a grandes manadas de dromedários (camelos) que deambulam sozinhos pela planície, ao sabor dos parcos pastos e dos poucos pontos de água.



Mhoamed, o patriarca hospitaleiro e duro negociador.
Esta imagem ampliada foi-lhe oferecida 30 meses depois de se deixar fotografar.


É neste ambiente que o sistema de abastecimento de água se aproxima da estrada. Foi aqui que os 3 “empreendedores” montaram o seu negócio, como bons berberes e comerciantes. Para a grande maioria dos viajantes os poços passavam despercebidos. Os três irmãos, num misto de guias turísticos e zeladores, acentaram arraiais, reconstruíram o engenho para retirar a areia das entranhas do deserto e na sua tenda nomade, recebem com hospitalidade marroquinos e turistas que a conta gotas param pela curiosidade, ou para aliviar o cansaço provocado pelos intermináveis kilómetros.
O tempo não conta, nem as estações do ano que trazem ainda menos visitantes. Preservam os poços e mantêm o local limpo e acolhedor para quem chega e agradece uma chávena de chá de menta.



Ibrain, o mais novo dos três irmãos desenha na areia do deserto a planta das “Les Khettaras”.



Interpretação das “Les Khettaras” segundo os desenhos de um estudioso espanhol



Ibrain o acrobata da família cuja principal tarefa é demonstrar como o sistema funcionava. Aqui a descer para um dos poços





O fundo de um dos poços aos cerca de 20m de profundidade hoje sem água


As oportunidades de negócio vêm depois, após uma explicação ao vivo sobre o funcionamento do sistema (Les Khettaras) e umas acrobacias explicativas de como os poços eram escavados e retirada a terra do leito do deserto. De volta à tenda, criado o ambiente com histórias e cantigas arrancadas ao som de uma viola construída com uma velha lata, as arcas vão-se abrindo e do seu interior aparecem pequenos tesouros da joalharia berbere, feitos em prata arrancada ao subsolo do Saara. Esta não é uma loja de souvenirs. Aqui chegam peças originais oriundas das várias tribos que habitam a região e foram trabalhadas pacientemente por artesãos experientes e sábios no seu labor.

Fazer negócio não é fácil. Não há preços marcados. Quando interrogados sobre o valor de um qualquer objeto, pedem para sermos nós a fazer o preço. Para os turistas, esta é uma armadilha fatal. A tendência é oferecer mais com receio de ofender. A arte e o (atrevimento) de negociar com os Berberes aprende-se com a experiência. Fechar um negócio pode levar horas, ou mesmo dias. No meu caso, o último negócio demorou dois anos a concretizar, muitas chávenas de chá correram pelo enfarruscado bule, a par com discussões intermináveis muitas vezes acaloradas.



Última tentativa de acordo na nossa visita de há dois anos

Na tenda está-se bem. Envolvidos pelo conforto das almofadas e dos tapetes, deixamo-nos embalar pelo aroma do chá misturado com o inconfundível odor ao deserto, numa atmosfera de paz e relaxe.

Em agosto passado fechamos um negócio que tinha começado a ser discutido 30 meses antes. Na altura, e depois de horas de argumentação não chegamos a acordo. Mais que os valores foi uma questão de teimosia. Fiquei a perder. Não comprei as peças que desejava e privei os meus amigos de longa data de realizarem algum dinheiro que lhes era crucial.

No passado verão fizemos as pazes, regateei menos e enriqueci o meu espólio com mais uns quantos tesouros Berberes. Como o tempo não é medido, um ano ou um mês valem o mesmo.Volta sempre e traz os amigos.




Embora com um instrumento improvisado é fantástica a sonoridade que a habilidade de Ibrain retira do seu violino construído a partir de uma lata

A próxima visita a correr como planeado vai acontecer em junho.
INCHALA! (se Deus quiser).


Texto e fotos: Carlos Ribeiro, fotógrafo e viajante

Reportagem efectuada com o apoio do The English Centre

22 de janeiro de 2010

«O mesmo oceano, outras "artes" de pesca» por Carlos Ribeiro

NA GÂMBIA O ATLÂNTICO É GENEROSO, OS PESCADORES CORAJOSOS E OS MEIOS RUDIMENTARES

O mar é a grande paixão. A proximidade de Peniche, as visitas ao porto, ver carregar as redes e descarregar o peixe preencheram grandes momentos da minha meninice. Foi aqui que aprendi a gostar do mar, a respeitar o trabalho dos pescadores e a sonhar com paragens longínquas.
Mais tarde, a aventura dos descobrimentos aprendida nos bancos da escola, empolgada pela retórica de época, criou o orgulho nos nossos navegadores, um bom aluno de história e o sonho em visitar os cabos de todas as tormentas e a conhecer os adamastores espalhados pelas costas de África.
Dentro ou fora do país, não há sitio com barcos e pescadores que não me prenda a atenção e das lentes da minha máquina fotográfica.


A GÂMBIA

Encravado no Senegal, na costa ocidental de África, com uma população estimada de 1.200.000 habitantes, a Gâmbia é o resultado das disputas territoriais entre a França e a Inglaterra, depois da chegada dos nossos navegadores no século XV que depressa ficaram com o domínio do comercio que chegava do interior do continente. Apostados em negócios mais rentáveis, a possessão acabou por ser vendida aos ingleses com todos os direitos comerciais pelo Prior do Crato. Da nossa passagem ficaram vestígios de construções militares para defesa da costa e fortes elos na língua, sendo facilmente reconhecíveis palavras como colher ou chave.
O país, de pequenas dimensões “inventado” nas margens do rio Gâmbia que lhe dá o nome, é um oásis fértil, de clima ameno, desenhado ao sabor de estratégias políticas e militares do momento, abundante em água e com uma costa atlântica de 70km, onde naturalmente foram surgindo dezenas de comunidades piscatórias.
República presidencialista, ganhou a independência de Inglaterra em 1965 de quem herdou a língua oficial, as regras administrativas e o regime legal, tendo como presidente Yahyaja Mmeeh que gere o país em regime ditatorial.
A produção de amendoins e o turismo são as suas principais indústrias.


A chegada do peixe à praia


A PESCA

Vital para a economia do país devido à alimentação barata que oferece à população, permite exportar o excedente para os países do interior e é fonte importante de emprego. Praticada de forma artesanal, pescadores e vendedores são a parte visível de um mundo onde laboram milhares de pessoas que garantem a sua subsistência em actividades ligadas em cadeia ao sector, numa rede que obedecendo às regras de mercado gera riqueza e prosperidade, fundamentais numa economia assente nas actividades primárias.


TANJI - UM DOS MAIORES CENTROS PISCATÓRIOS DA GÂMBIA


Praia de Tanji

Entalada entre a estrada que liga a capital Banjul ao Sul do território, Tanji é uma aldeia com cerca de 1000 habitantes que se espraia ao longo do areal e assenta a sua actividade numa infra-estrutura rudimentar. A praia é o centro da vida social e económica da aldeia, é ali que tudo acontece. Os barcos saem ao mar e logo olhos treinados perscrutam o horizonte. O regresso significa peixe, e peixe o dinheiro que todos precisam.


À espera do peixe fresco

As canoas maiores não aportam na praia. Pairam ao largo comandado por mestres altivos. Ao avistamento das embarcações, raparigas correm em disputa pelo primeiro e melhor peixe que na praia entregam a mulheres mais velhas que o levam até uma “frota de carros de mão”. Na descarga dos cabazes tem início uma disputa entre compradores e vendedores essencialmente mulheres de fortes pulmões e grande diversidade de vocabulário. A discussão é dura mas não deixa sequelas.


À procura do melhor peixe

Longe dos regateios, grupos de mulheres decoram a praia sentadas com os seus vestidos tingidos de múltiplas cores, amanhando por conta dos compradores. Mãos hábeis e calejadas rasgam o peixe com golpes certeiros num frenesim imparável, antes de seguir para a secagem ao sol, fumagem ou directamente para o mercado. Todos participam, todos têm algo a ganhar.
Cheira a África!


Amanhando o peixe na praia


DA DESCONFIANÇA À HOSPITALIDADE

Penetrar no meio é duro. Todos os olhares se concentram em nós, desconfiam da máquina fotográfica, da cor da pele e é impossível ignorar os olhares penetrantes e gestos de desagrado.
Adoptado por Abdul de 8 anos e Mulh de 12, graças ao Ronaldo passei a ser o centro de todas as atenções. Um pequenote agarra-me pela mão e acompanha-me por todo o lado. Impossível resistir… Com o passar do tempo todos pedem para ser fotografados, deixam de pedir dinheiro e começam as confidências. Os gambianos são simpáticos por natureza.
Uma boa parte dos residentes são imigrantes senegaleses, do Gana ou Mali, a maioria não documentados. Os homens que remendam as redes são os mais mal pagos e não fazem segredo. Todos vivem no mesmo areal e trabalham para o mesmo fim, mas apesar do bom relacionamento está bem delineado o espaço de cada comunidade. Outro identifica-se como policia e reclama a falta de dinheiro. Por momentos sou o balcão de todas as reclamações. Lamin, 38 anos, casado, 3 filhos, é controlador da descarga das canoas. Recebe por dia 100.00 Dalasis (três euros). Queixa-se amargamente de não ter dinheiro para mais que uma esposa. Sinal de estatuto e riqueza, outros ha que têm 6 mulheres. O desapontamento é total quando digo que em Portugal também é o mesmo. Há desemprego, falta de dinheiro e os portugueses só têm dinheiro para uma mulher.

O Atlântico é generoso. Mais a Sul as águas são mais quentes, as espécies abundantes e diferentes, o mar lá como aqui é uma fonte de vida e riqueza.
O dinheiro é curto mas os gostos exigentes. O peixe mais apreciado é o maior, Barracuda, Lady fish, cat fish, entre dezenas de muitos outros são os mais disputados na “lota” e no mercado. Gostam do peixe sem espinhas. As montras dos hotéis e restaurantes de luxo convidam turistas e os mais endinheirados a degustar o marisco (em tradução directa).
As nossas portuguesas sardinhas eternizadas na brasa são anatomicamente diferentes. De pele mais clara, sem manchas e mais gorduchas, mal chegam a terra acabam na ponta do cutelo onde são peladas e estripadas sem dó nem piedade, para depois serem moídas e vendidas em bolinhas como almôndegas. Apreciado petisco para os locais, grande desperdício para mim…


Cai a tarde, melhora a luz, o dia está limpo e a temperatura é amena. Está-se bem na praia… Empenho-me a fotografar e a captar o ambiente temperado pela maresia e o vai e vem constante de barcos e pessoas que se atropelam no areal. Nas lojas alinhadas na areia, emergem figuras rodeadas pela desordem. Com olho atento e destros nos trocos aviam a clientela. Tudo se vende, de amendoins a telemóveis. Um vendedor ambulante especializado em cigarros oferece-me “Marlboros” à unidade.
Mais abaixo um bando de abutres chega-se demasiado próximo. Devoram ferozmente as carcaças de todo o que encontram. Os rapazes desesperam. Afinal são os enviados de outros 20 que ao longe “controlavam as operações”. Tal como as aves que as dezenas pairavam sobre a distraída presa, também eles aguardavam a hora de apresentar a factura.
A discussão instala-se. Não há acordo sobre o que pedir. Uns querem dinheiro, outros mochilas para a escola. A tão “esforçado trabalho” e a sorrisos de menino tão abertos, é impossível dizer não. Na impossibilidade de dar dinheiro, ou outros esperados presentes à crescente multidão, compro 2 bolas de futebol que despertaram uma explosão de alegria, com direito a comitiva protocolar até ao carro.
O futuro é que vai determinar. Vão ser pescadores, ou Ronaldos?


AS VIAGENS DE TODAS AS ILUSÕES

As viagens de imigrantes clandestinos rumo à Europa são conhecidas de todos. Impossível não saber o óbvio, sobretudo para quem habita no litoral com praias a perder de vista, zonas isoladas, um mar ameno e falta de patrulhamento. O assunto é tabu. Todos sabem mas ninguém comenta. Para obter informações é preciso conquistar a confiança e essa é uma tarefa que leva tempo.

Vencida a timidez toda a gente tem algo para dizer. Pouco, sem grandes detalhes, uma informação daqui, outra dali lá vão adiantando pormenores. Os construtores de barcos revelam-se a melhor fonte. Maioritariamente originais do Gana, constroem as embarcações num sítio ermo, longe dos pescadores e rapidamente nos apercebemos que vivem num mundo à parte. Mencionar nomes e contactos está fora de questão, ninguém o faz. Têm medo. Eles próprios são clandestinos e chegaram através de uma rede que tem os seus tentáculos sobretudo nos países mais pobres do interior do continente, em que as expectativas de encontrar emprego são quase nulas.
As canoas construídas para pescar foram crescendo de tamanho conforme as necessidades. As maiores usadas no tráfego atingem os 22m e chegam a transportar mais de quatro dezenas de pessoas mais tripulação, sendo exactamente iguais às que vemos com frequência na televisão, notícia de tragédias ou de imigrantes que chegam no limite da resistência física. Elegantes e coloridas, algumas a ostentarem decorações alegóricas e cuidadas, não estão de todo preparadas para o transporte de passageiros, muito menos em alto mar. A bordo não existem confortos e muito menos condições higiénicas.


Construção de canoas

Iludidos por vendedores de sonhos, angariados com promessas falsas, algumas destas vítimas das circunstâncias levam anos para chegarem ao porto de partida e trabalham em condições inaceitáveis para angariar os 400.00€ (assim nos foi dito) que custa a passagem sem futuro e muitas vezes sem retorno.
Impulsionados por fortes motores fora de bordo, a viagem até à costa marroquina é feita com terra à vista sendo impossível, como testemunhamos, identificar ao largo a carga e o destino das embarcações (podem ser de pesca ou de qualquer outra coisa), sendo a única preocupação fugir ao ineficaz controlo da polícia. Bons mestres a navegar, quando rumam a oeste em direcção às Canárias e enfrentam mar aberto entram num jogo devida ou morte em que tudo pode acontecer.
Se um qualquer GPS de bolso pode identificar as ilhas no meio do oceano, este é o troço em que tripulação e passageiros acusam o cansaço de uma viagem esgotante com noites dormidas ao relento e mal alimentados. Para muitos acresce ainda o medo de quem pela primeira vez se faz ao mar. Este é o estágio em que tudo pode acontecer e os relatos dos serviços noticiosos são de todos infelizmente conhecidos.
Com o peso da responsabilidade de quem tem regularmente de enfrentar e resolver no limite o problema nas suas costas e sem resposta eficaz das autoridades locais, não foi surpresa encontrar em território gambiano uma brigada da Guardia Civil espanhola a tentar menorizar o problema numa das suas origens.
Quantos são e de onde vêm é impossível de determinar numa região parca em estatísticas, em que a grande maioria da população não sabe coisas tão simples como a data do seu nascimento.


A NECESSIDADE AGUÇA O ENGENHO

Natural de Dakar no Senegal, Abdul, 40 anos, é um dos muitos pescadores que vivem numa aldeia improvisada no areal sem referências no mapa, excepto pelo facto de estar situada na linha de fronteira entre o Sul do país e a vizinha província senegalesa de Casa Mansa e que rumam às costas da Gâmbia para fazer a época da safra. Ajoelhado no areal assistido por Mohammed de 14 anos, seu aprendiz repara um pequeno motor fora de bordo que se recusa a funcionar.



Abdul e Ahmed dão vida ao motor da canoa


Aproximo-me, cumprimento em árabe e depois em francês conversamos um par de horas. Por experiência há muito que conheço a habilidade dos africanos para sem meios e muito engenho fazerem funcionar qualquer coisa.
O motor fora de bordo, um Yamaha, em Portugal há muito que estava esquecido na sucata. Aqui é visível o número de milhas que empurrou a canoa de Abdul e pela idade e bons serviços prestados bem merecia o descanso da reforma.
Os motores são muito caros diz-me, para com mãos hábeis e uma paciência de africano com a ajuda de um canivete, chave de estrelas e chave de caixa, desmontar peça por peça as entranhas da máquina até detectar o problema. A operação foi ainda aproveitada para ir ensinando ao menos paciente ajudante a “arte de rejuvenescer motores fora de bordo”.
A falta de meios tem um preço, o tempo. Por aqui ninguém se queixa com esse detalhe. A excepção pareço ser eu que apostado em ver os resultados vou olhando com impaciência para o relógio.
Era o circuito de alimentação, indica Abdul com triunfo, apontando para o emaranhado de cabos e peças que conduzem a gasolina ao seu destino. Com água misturada não funciona, afirma peremptório.
Um bidão velho serve de suporte, dois esticões decididos e voilá…
Se a época correr bem, Adul espera ir a casa na época das chuvas para ver a família e participar nas festas da sua aldeia. Inshallah… (se Deus quiser).


Texto e Fotos de Carlos Ribeiro, Viajante e fotógrafo


Reportagem elaborada com o patrocínio do The English Centre

19 de janeiro de 2010

"AUTOCARROS DE MALTA " por Carlos Ribeiro

MUSEU CIRCULANTE DOS TRANSPORTES PÚBLICOS

No ar pairava um cheiro gorduroso a gasóleo. Em VALLETTA SQUARE, terminal rodoviário da capital de Malta, o movimento de autocarros e pessoas é incessante. Tudo acontece junto a uma das principais entradas da cidade e ao redor de uma rotunda de proporções generosas, que serve de base à TRITON FOUNTAIN. Para quem chega ou parte em transporte público, aqui é o centro do Mundo.

Malta é uma ilha isolada no Mediterrâneo, desde sempre encruzilhada de civilizações e de eternos interesses estratégicos entre África e a Europa. Por momentos sinto-me no continente negro. A organização do espaço, o colorido das vestes dos transeuntes, as lojas de comida e ‘quinquilharias’ utilitárias, a par com sonoras semelhanças na linguagem com o árabe, transportam-me para outras paragens. Mas no meio da confusão os meus sentidos devolvem-me à Europa, não à continental, mas para um local mais exótico, que desperta os sentidos e nos faz sentir a enorme mescla de culturas que é o espaço europeu.

A minha presença tinha um objectivo, ver de perto e fotografar os autocarros da PUBLIC TRANSPORT ASSOCIATION, facilmente reconhecidos pelas fortes cores laranja e vermelha das carroçarias, oferecendo um dinamismo e um calor simpáticos à paisagem, castigada pelo Verão seco e prolongado.




O mais fascinante da frota que compõe os autocarros do país não são, não obstante, as suas cores. O interesse reside nas viaturas em si mesmas que apesar da sua respeitosa idade, são mantidas a funcionar de uma forma surpreendente, transformando-as num autêntico museu em movimento da história da indústria automóvel, desde a década de cinquenta do século passado, até aos nossos dias.

Para mim o dia tinha começado cedo. Para chegar à central de camionagem tive que fazer a ligação entre as duas principais ilhas do arquipélago de barco e de seguida cumprir um circuito de quase hora e meia num destes exemplares. O velho senhor, um BRITISH LEYLAND que à muito deixou de contar a idade, apresentava-se reluzente, pronto para enfrentar os pouco mais de 60 km do trajecto. Carregado de passageiros, a maioria turistas que como eu apresentaram uma nota de demasiados euros para pagar os 0.58 cêntimos do bilhete, deixaram o motorista pouco bem disposto com os trocos e a fazer múltiplos cálculos para não se enganar. O euro só foi introduzido este ano e não há arredondamentos.

Estrada a cima, a gemer com o peso e com a suspensão a reclamar amargamente as irregularidades do asfalto, o motor bem aproveitado vencia com surpreendente agilidade as constantes subidas, para de seguida mostrar o seu melhor para ajudar a reduzir a velocidade nas inevitáveis e sinuosas descidas. O pitoresco tem um preço e depois da primeira meia hora de bolandas, poucos davam mostras da curiosidade inicial para procurarem algum conforto para o amassado corpo na interminável viagem.



As opiniões dividem-se sobre a condução nas estradas de Malta. A tese de conduzirem pelo lado da estrada em que há sombra não faz sentido pela notória falta de arvoredo. Estou em querer que o problema não reside no facto de conduzirem pela esquerda; a dificuldade reside em não ter ficado esclarecido que não se conduz pela direita. A confusão é grande, a polícia tem mais que fazer que patrulhar as estradas, a condução ‘criativa’ é a norma e estão todos ruidosamente habituados, excepto um casal de ingleses ao meu lado a arquitectar planos para meter toda a gente na cadeia.

Os jornais não noticiam acidentes na estrada. O sistema funciona...

Com o aproximar da cidade, é menor o espaço e muitos os carros com pressa de chegarem ao próximo engarrafamento. O número de autocarros de serviço suburbano aumenta a olhos vistos e com eles as ruas ganham colorido. Os meus colegas de viagem deixam de reclamar e pronunciam um enfático, “Incredible!”. Ninguém fica indiferente ao desfilar destes bonitos e elegantes donos do asfalto. Sinto-me transportado para os meus anos de meninice quando vinha às Caldas na carreira dos Claras.

No terminal não me consigo decidir. Afinal por onde começar? Não há guia, a entrada é gratuita e o museu está aberto todos os dias do ano, dia e noite para quem o quiser visitar. Ao todo e desde que fundada em 1977, a empresa detém 508 unidades activas, das quais 254 permanentemente ao serviço, garantindo o transporte de passageiros em toda a ilha e na época escolar o transporte dos alunos para as escolas. Pela viagem mais longa um passageiro sem passe paga 1.00€, explicando assim as enormes caixas cheias de cêntimos, para quem, como eu, fui convidado a ir ao bar trocar o dinheiro do bilhete se queria mesmo embarcar.

Ao meu lado, por todos os lados aparecem autocarros Vintage com as suas carroçarias de linhas arredondadas a assinalar modas de tempos, que por aqui continuam actuais. Painéis impecavelmente pintados e cromados reluzentes a fazerem justiça à criatividade dos pintores e bate chapas capazes de manterem como à saída da fábrica modelos Bedford, AEC, British Leyland e Ford, entre tantas outras marcas, num estado irrepreensível graças ao engenho nascido da necessidade das antigas garagens familiares, concorrerem entre si para apresentar os mais atractivos e confortáveis autocarros, factor de distinção e rivalidade comercial.




Com o litro do gasóleo a 1.20€ e os preços dos bilhetes simbólicos, não admira a necessidade de com poucos recursos e muita determinação fazer funcionar de uma forma brilhante estes veículos fundamentais no dia a dia.

Cada viatura é uma obra de arte. À partida por serem da mesma cor todos parecem iguais. No entanto, um olhar mais atento, revela construtores distintos, com os modelos a patentearem as diferentes épocas da sua construção. O mais interessante é no entanto cada unidade ser única e personalizada. Ao longo das décadas as necessidades de manutenção deram origem a profissionais especializados na reconstrução das mecânicas e restauração das carroçarias que, para além dos passageiros, transportam um simbolismo econográfico digno de estudo, directamente relacionado à cultura e misticismo religioso dos malteses. Quem não se lembra no passado nos nossos camiões frases do género: Deus te guie?

Fanáticos pelo futebol (na altura ainda não tinham perdido por 4 a 0 com a nossa selecção), caso contrário não me atrevia a responder prontamente que era português, o que representou sempre um problema, pois a curiosidade morria com a resposta. Onde diabo é esse país? ou, nunca ouvi falar. Garantidamente não foi um problema de comunicação...

Emblemas de clubes, marcas de camiões, e todo o género de referências ligados à indústria automóvel, tudo serve ao imaginário de quem vive isolado numa ilha, desde que colorido e estético para a decoração dos autocarros, calculada com mestria e assinada com orgulho pelos seus autores.

A ameaça a este museu circulante da história automóvel, ex-libris do país e parte integrante da sua tradição, vem no entanto de fora, de Bruxelas, segundo o The Times – edição local. Os burocratas da Comunidade preparam-se para impor normativas e novas regras para o sector que esperamos melhorem aspectos como os níveis de poluição e segurança mas preservem tudo o resto, a bem do direito à diferença e preservação para o futuro dum património nostálgico e insubstituível.



UM MOTORISTA DE RELÍQUIAS

Carmel tem 60 anos, casado, pai de 3 filhos, motorista de autocarros à 42, trabalha 6 dias por semana nas carreiras dos urbanos nos arredores de Valletta, capital de Malta, com o seu Ford Thames. Hospitaleiro, bem disposto e de sorriso aberto, convida-me a entrar no seu local de trabalho e fala com orgulho do seu autocarro, quase da sua idade.

– Os passageiros gostam de viajar comigo, gostam da minha condução. Nunca tive acidentes. Estás a ver este homem? (aponta para uma imagem do Sagrado Coração de Jesus). Este é o meu guia. Com ele sou feliz. Ele toma conta do meu destino.

Conta-me num inglês compreensível, mas mesclado com a influência acentuada de outros falares que caracterizam o pequeno território.

Num país de forte cariz religioso, com igrejas e capelas desiminadas por todo o lado, é de compreender a fé de Carmel. Talvez a crença lhe tenha evitado os acidentes, em combinação com a sorte e perícia ao volante. Numa terra com um padrão de condução tão ‘descontraído’, ter um ser superior que olhe por nós, dá sempre jeito.

Aos quilómetros percorridos perdeu-lhes a conta, a ilha é pequena, os percursos curtos mas repetidos diariamente ao longo das últimas quatro décadas. As marcas do tempo não estão no autocarro (esse pode ser sempre retocado), os sinais estão nas mãos hábeis ao volante, calejadas de tantas curvas em que a direcção assistida é só para uma minoria de colegas com modelos mais recentes. Se o rosto é a imagem da alma, Carmel é mesmo um homem feliz e realizado com o seu trabalho.



EM PLENO FUNCIONAMENTO

UM DOS AUTOCARROS MAIS ANTIGOS DO MUNDO


Naquele dia já tinha visto dezenas de autocarros, todos com as mesmas cores, todos parecidos, igualmente antigos e estimados. Agachado, joelho acente no chão, concentrado na procura de mais um ângulo para captar fotos das peças deste museu em constante movimento que desfilava perante os meus olhos, sou surpreendido por uma verdadeira relíquia que penetrava nas lentes da minha máquina fotográfica. Este era diferente. Em comparação, os outros tinham acabado de sair da fábrica. Nem podia acreditar.

Apesar da evidente idade, chega ágil e elegante, carroçaria de linhas arredondadas, aspecto aristocrático, perfil inconfundível, com o motor a sair elegantemente pela frente do conjunto, engalanado por reluzentes e enormes guarda lamas pretos. No topo do capot, a encimar orgulhosamente o símbolo da marca, fitas esvoaçam, numa simbologia que foi chic noutros tempos da história automóvel. Era um FORD THAMES.

Adquirido num lote de umas dezenas de unidades, esta relíquia da indústria automóvel chegou a Malta no início da década de 50 do século passado. Hoje, com 56 anos desde a data da sua construção e milhões de quilómetros percorridos, quase parece saído de uma linha de montagem.

Integrado na rede de transportes rodoviários do país, funciona regularmente nos circuitos sub urbanos ao redor da capital, Valletta. Impecavelmente pintado com as características cores laranja e vermelha, cromados a brilhar, sem um traço de ferrugem, é imperceptível que a carroçaria é construída em madeira e resistiu sem sinais aparentes de desgaste a seis décadas de trabalho duro, por estradas sinuosas e cheias de buracos.

Se o exterior impressiona, lá dentro o cuidado com a manutenção é igualmente visível. Bancos forrados em lona azul, pouca espuma, (neste aspecto os passageiros apreciam a chegada ao destino), impecavelmente limpo. No interior espartano sobressai no entanto o posto de condução. Aqui o peso dos anos e uma utilização intensiva mostram as suas marcas. A era do digital é um conceito desconhecido e elementos como os manómetros, alavanca da caixa de velocidades ou o volante, transportam-nos para uma época de outras tecnologias que já foram de ponta e que todos os dias provam a sua fiabilidade.

Nunca avaria, afirma Carmel. Gasta menos gasóleo que os modelos mais novos e não consome óleo. Para me convencer, liga o motor (um PERKINS primitivo) e para minha surpresa, em vez da esperada barulheira típica dos diesel estafados, ouço um doce e suave ronronar, compassado ao ritmo lento da vida por estas paragens, pronto para continuar a devorar kilómetros, com os cuidados atentos do seu motorista.

No calor da conversa, quase esquecemos que a carreira 56 tem horário certo de partida e os passageiros habituados à pontualidade, davam monstras de impaciência em ocupar os seus lugares e seguir viagem para os seus destinos, sem pompa, mas com estilo, abordo de um dos autocarros em funcionamento mais antigos do mundo.




Texto e Fotos: Carlos Ribeiro, fotografo e viajante

Reportagem efectuada com o patrocínio da escola de línguas: The English Centre