"Água no Deserto" por Carlos Ribeiro
ENGENHARIA SECULAR BERBERE CONSTRÓI “LES KHETTARAS”
O deserto do nosso imaginário é quase sempre associado a um local longínquo, com imensas extensões de areia, temperaturas elevadas e ambiente hóstil à presença do homem, devido à falta de recursos nomeadamente a indispensável água. Esta imagem generalizada também nos acompanhou ao longo dos anos, até surgir a possibilidade de rumar a outras latitudes e viver em contacto com esta realidade. A experiência única da luta pela subsistência nos imensos espaços de areia.
Dromedários pastoreiam livremente na planície desértica
Inicialmente com amigos, motivados pelo desejo da aventura “exploradores dos tempos modernos”, para em resultado de uma escolha de vida passar a viajar habitualmente por estas paragens adquirindo aos poucos o á vontade de um profissional, percorrendo as pistas do Dakar e conduzindo expedições a locais fascinantes que habitam o nosso imaginário pela mão do cinema por locais desconhecidos, sem registos nos mapas, estradas, ou comunicações por telemóvel.
Se nas primeiras impressões o fascínio é de quem descobre um mundo novo, com uma vivência exigente e muito própria, que se vai adquirindo com o passar do tempo e o calcarrear das pistas, aos poucos concentramo-nos em detalhes e reflexões, na avidez de quem procura respostas tão simples como a fixação dos Berberes em oásis, sem que à vista existam quaisquer sinais da existência de água, nem tão pouco as românticas palmeiras, “clichés” associados aos pequenos pedaços de vegetação plantados no deserto permitindo a fixação das gentes que vivem, «sobrevivem», em bolsas de pequenas comunidades com algumas cabeças de gado e os parcos haveres de quem resiste numa luta sem igual contra a infertilidade do solo, as areias ciclicamente arrastadas pelo vento e as temperaturas escaldantes.
Jóias da ourivesaria berbere trabalhadas em prata
No grande Sul marroquino, nos cerca de 160km que medeiam Tinerhir de Erfoud é impossivel ignorar as centenas de montes de areia, alinhados de forma organizada e repetitiva que povoam os limitrofes dos oásis, inundando a superfície do deserto de uma forma simetrica, em contraste com as dunas que crescem e ganham forma ao sabor do critério dos ventos.
Empurrados pela curiosidade, mais forte que os nossos compromissos de agenda, controlados pelos ponteiros do relógio, mesmo no deserto, ignoramos as pistas e as coordenadas da navegação por satélite, para avançar rumo aos intrigantes montes que à distância, parecem construidos por laboriosas e gigantes formigas.
Se é verdade que a necessidade aguça o engenho, o facto é que ninguém espera em pleno Saara, encontrar uma obra de engeharia Berbere, resultado da imperiosa necessidade de obter água, sem dúvida fruto de estudo e conhecimentos antigo, para concretizar o arrojado projecto.
Pelo que conseguimos averiguar, no hospitaleiro mas nem sempre fácil diálogo com os orgulhosos homens das areias, a obra de engenharia data do século XII e foram necessárias dezenas de anos de trabalho árduo e comunitário para a sua concretização. A falta de documentação escrita, permite-nos investigar unicamente pelo conhecimento verbal, passado de pais para filhos, com as omissões e falta de rigor próprios do processo.
A informação da data é meramente especulativa. Por aqui diz-se de tudo para cativar a atenção e o interesse dos viajantes, criando mais oportunidades de negócio. Por certo é fácil depreender que o tamanho e solidez das terras removidas à volta dos poços são relativamente recentes, talvez devido à ciclica necessidade de manutenção, forçada pela acção do vento.
Não é fácil encontrar entre as dunas e ergues quem tenha os conhecimentos ou os meios para dominar o processo da escrita, apesar destas paragens serem um dos berços da mais importante forma de comunicar até hoje inventada. As nossas investigações levam-nos a concluir que gerações anteriores encontraram como solução para obter água em quantidade suficiente para as suas necessidades a construção de poços com 1.5m de diametro, escavados primáriamente na areia, atingindo o subsolo de cascalho, aos 20m de profundidade, interligando-os entre si por um estreito túnel com espaço suficiente para caber um homen (que procedeu à tarefa de abertura do buraco), com uma quota de inclinação a qual permite a deslocação da água em direção aos pequenos oásis. O conjunto de dezenas de poços ligados ao túnel, entre parca nascente e o destino final, vão recolhendo as magras gotas de água que lacrimejam a maiores profundidades, engrossando pacientemente o pequeno caudal até à sua chegada ao poço comunitário, tornando assim possível a sobrevivência em locais tão inóspitos.
A tenda nómada dos Guardiões de Memórias e Vendedores de Tesouros
TEMPO, CONHECIMENTO E PACIÊNCIA
Levando em consideração as toneladas de areia e cascalho removidos, assim como os rudimentares instrumentos de trabalho utilizados, é impossivel determinar qual a quantidade de tempo ou mão-de-obra para concluir tão faraónica empreitada. Conhecendo a filosofia de vida que pauta os homens do deserto e sabendo-se que no seu quotidiano a passagem das horas não é aferida pelos nossos padrões, para estes observadores das estrelas e das miragens, o passatempo preferido são as intermináveis conversas em grupo, regadas com escaldantes chicaras de chá de menta, respeitando uma hierarquia na qual o estatuto social é medido pela riqueza pessoal: entenda-se cabeças de gado e mulheres. Tempo e persistência foram decisivos para a conclusão da obra.
As grandes questões colocam-se no entanto em aspectos de ordem mais técnica: escavar em que locais?, a que profundidade?, com que inclinação e alinhamento?, quantos poços construir?, tudo isto sem dispor dos modernos meios tecnológicos de hoje. Por muito rudimentar, esta é uma forma de conhecimento antiga, mas eficaz que infelizmente não chegou até nós.
Se temos como certa a resolução da questão técnica, sem a qual não teria sido possível a fixação de pequenos grupos nas áridas areia, até aos dias de hoje, como á milénios, enfrentando a rigidez dos elementos e desafiando as leis da natureza, só um forte apego ao deserto (seu habitat natural) e uma vontade férrea de resistir explicam a motivação dos “homens azuis” face ao milagre do impossível.
Os múltiplos poços alinhados no deserto, comunicando entre si por túneis subterrâneos
GUARDIÕES DE MEMÓRIAS E VENDEDORES DE TESOUROS
Mohamed de 30 anos, Yousef de 29 e Ibrain de 28 são irmãos, solteiros, naturais dos planalto do Tafilalt situado nas margens do rio Ziz, considerado um dos maiores oásis do mundo com uma “floresta” de palmeiras a espraiarem-se ao longo de um dos maiores cursos de água da geografia marroquina. Vivem no deserto, numa tenda nomade, e quando possível vão ver a família que habita o oásis (cidade) de Erfoud, província de Er-Rachidia no Sul de Marrocos, situado nas desérticas planícies de areia que antecedem as montanhas do Atlas, antes de penetrarmos no coração no grande deserto do Saara.
A probabilidade de encontrar emprego é quase nula, a agricultura é de subsistência e a pastorícia reduz-se a uns magros rebanhos de cabras e a grandes manadas de dromedários (camelos) que deambulam sozinhos pela planície, ao sabor dos parcos pastos e dos poucos pontos de água.
Mhoamed, o patriarca hospitaleiro e duro negociador.
Esta imagem ampliada foi-lhe oferecida 30 meses depois de se deixar fotografar.
É neste ambiente que o sistema de abastecimento de água se aproxima da estrada. Foi aqui que os 3 “empreendedores” montaram o seu negócio, como bons berberes e comerciantes. Para a grande maioria dos viajantes os poços passavam despercebidos. Os três irmãos, num misto de guias turísticos e zeladores, acentaram arraiais, reconstruíram o engenho para retirar a areia das entranhas do deserto e na sua tenda nomade, recebem com hospitalidade marroquinos e turistas que a conta gotas param pela curiosidade, ou para aliviar o cansaço provocado pelos intermináveis kilómetros.
O tempo não conta, nem as estações do ano que trazem ainda menos visitantes. Preservam os poços e mantêm o local limpo e acolhedor para quem chega e agradece uma chávena de chá de menta.







